Escrevo este texto não apenas como hipnoterapeuta, mas também como enfermeira. Trabalhei durante vários anos em contexto hospitalar nos Países Baixos e testemunhei diariamente o impacto do medo, da ansiedade e do stress nos pacientes. Foi precisamente por isso que, há mais de 20 anos, decidi estudar Hipnoterapia. Procurava uma forma de apoiar os meus pacientes a um nível mais profundo, muitas vezes inconsciente.
Naquela altura, falar de hipnose nem sempre era fácil. Muitas pessoas associavam a hipnose a espetáculos ou a algo pouco científico. Felizmente, isso tem vindo a mudar. Hoje existe cada vez mais investigação que demonstra os benefícios da hipnoterapia em diferentes situações clínicas, especialmente no apoio a crianças e adolescentes.
Recentemente acompanhei de perto a situação de uma adolescente de 15 anos. Depois de uma cirurgia ao apêndice, surgiram complicações e teve de voltar a ser internada. Estava muito debilitada, ansiosa e não conseguia parar de vomitar. Sentia-se completamente sem forças.
A equipa médica explicou-lhe que era muito importante conseguir parar de vomitar. Caso contrário, seria necessário colocar uma sonda nasogástrica, algo que a assustava bastante.
Como complemento ao tratamento médico, sugeri à mãe que perguntasse à filha se estaria disponível para ouvir algumas gravações de hipnoterapia. Naquele momento, sentia-se tão desesperada que estava disposta a experimentar tudo o que pudesse ter, por mais pequena que fosse, uma possibilidade de a ajudar a sentir-se melhor.
Mais tarde, tanto a mãe como a própria jovem contaram-me que, enquanto ouvia a gravação, teve pela primeira vez a sensação de que alguém compreendia verdadeiramente aquilo que estava a viver. Isso emocionou-a profundamente. Mas, mais importante ainda, conseguiu relaxar e, pela primeira vez em vários dias, o seu corpo acalmou. A partir desse momento deixou de vomitar e, nos dias seguintes, a recuperação evoluiu rapidamente. Pouco tempo depois teve alta hospitalar e a evolução clínica foi muito positiva.
Quero deixar uma coisa muito clara: a hipnoterapia não tratou a infeção.
Foram os médicos, os enfermeiros, os antibióticos e todos os cuidados prestados no hospital que trataram o problema físico.
Mas a hipnoterapia ajudou a reduzir a ansiedade, o medo e a tensão. E quando um paciente consegue sentir-se mais calmo e seguro, o seu corpo também responde de forma diferente ao tratamento. É por isso que vejo a hipnoterapia clínica como um complemento aos cuidados médicos, e nunca como um substituto.
O que mais me fez refletir foi perceber que esta situação aconteceu num hospital nos Países Baixos, um país onde a hipnose clínica já está integrada em vários hospitais. Existem equipas que utilizam esta abordagem em Pediatria e, em muitos locais, crianças com dor abdominal funcional são encaminhadas pelos médicos de família e pediatras para hipnoterapia, porque tanto a investigação científica como a prática clínica demonstram resultados muito positivos.
Não se trata de acreditar ou não na hipnoterapia. Trata-se de conhecer aquilo que a evidência científica já nos mostra e de estar disponível para integrar ferramentas que possam beneficiar os nossos doentes.
Apesar destes avanços, percebi que nem todos os profissionais que acompanharam esta jovem conheciam esta possibilidade. Houve curiosidade, fizeram perguntas e mostraram interesse. Para mim, isso foi um sinal muito positivo. A mudança começa sempre pelo conhecimento.
Ao pensar nesta experiência, não consigo deixar de olhar para a realidade em Portugal. Aqui, a hipnoterapia continua a ser pouco conhecida no contexto hospitalar e muitas famílias nem sequer sabem que pode ser uma ferramenta complementar, segura e baseada na evidência científica.
Não escrevo isto para criticar os profissionais de saúde. Sei bem a dedicação com que médicos, enfermeiros e outros profissionais trabalham todos os dias.
Escrevo porque acredito que podemos fazer ainda melhor.
Se existem ferramentas que ajudam um paciente a sentir menos medo, menos ansiedade, menos dor e mais confiança durante um tratamento médico, então vale a pena conhecê-las e integrá-las sempre que fizer sentido.
Foi precisamente por momentos como este que, há mais de 20 anos, decidi estudar Hipnoterapia.
Espero sinceramente que, nos próximos anos, cada vez mais profissionais de saúde em Portugal descubram o potencial da hipnoterapia clínica e que mais crianças e adolescentes possam beneficiar de uma abordagem verdadeiramente integrada, onde a medicina e a hipnoterapia trabalham lado a lado, sempre com o mesmo objetivo: cuidar melhor de quem mais precisa. -Marlien van Leeuwen
Nota: A fotografia que acompanha esta publicação é meramente ilustrativa. A jovem retratada não é a adolescente mencionada neste testemunho. A sua utilização tem como único objetivo ilustrar o tema, protegendo integralmente a privacidade e a identidade da paciente.



